Italy, Rome 

 December 8, 2013

Italy, Rome: Letter of the Superior General for the Solemnity of the Immaculate Conception of the Most Blessed Virgin Mary, December 8, 2013 – in Portuguese

Carta do Superior Geral
PARA A SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO DA SVM 2013

Prot. n. 121/2013

Caros Coirmãos,

O Deus Misericordioso, em Sua bondade, concede-nos ─ mais uma vez ─ a possibilidade de vivenciarmos em oração e reflexão a solenidade titular da Imaculada Conceição da SVM. Voltamos os nossos pensamentos à Mãe do Senhor no mistério da Sua santa conceição, com a esperança de que desse mistério da salvação retiraremos a força e a alegriapara a nossa vocação (cf. C 6). Especialmente hoje, envolvemos com uma confiante e fraternal oração toda a nossa Congregação: todos os coirmãos, de todas as gerações e de todos os países, e principalmente os coirmãos em idade avançada, os doentes, os provados pelo sofrimento, bem como aqueles desorientados e atingidos pela crise das inquietações. Conscientizamo-nos de que, como comunidade fraterna, estamos unidos pelos laços do amor de Cristo e de que pelo Espírito Santo fomos agraciados com o mesmo carisma. Renovamos hoje os nossos votos religiosos e mais uma vez nos confiamos ao Deus amado acima de tudo, no serviço a Cristo e à Igreja, sob a maternal proteção de Maria Imaculada.

A festividade deste ano ocorre em circunstâncias que vale a pena anotar. No dia 24 de outubro passaram-se 340 anos da aprovação episcopal da primeira comunidade mariana, estamos vivenciando o Ano da Comunidade Mariana e há duas semanas o papa Francisco proclamou a exortação apostólica Evangelii Gaudium, na qual traçou para toda a Igreja o direcionamento para o futuro próximo. São justamente essas circunstâncias que encaminham as minhas reflexões na carta deste ano.

1. Imaculada Conceição da Mãe do Senhor ─ fundamento da identidade mariana. Do mistério da salvação à descoberta da Pessoa

Os 340 anos que se passaram desde o surgimento do primeiro convento na Floresta de Korabie induzem-nos a uma reflexão sobre os primórdios da nossa Congregação. Hoje, graças às pesquisas de historiadores e teólogos marianos, sabemos que, ao empreender os primeiros passos que visavam à fundação da uma nova comunidade religiosa, o Beato Padre Fundador possuía um ideal básico, que ele mesmo chamou de visão divina gravada em sua alma pelo Espírito Divino (cf. Fundatio Domus Recollectionis ─ doravante FDR 6, 9), que era a Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria, expressa tanto no nome da Congregação como no seu caráter imaculatista. Esse pensamento fundamental do nosso Fundador pode ser percebido desde os primeiros instantes da sua atividade de fundador. E, o que é importante, essa experiência espiritual deve ter ocorrido bem mais cedo, antes que tivesse deixado a Congregação das Escolas Pias, que lhe era mais cara que a sua vida (cf. FDR 20). É por isso que, apesar das enormes complicações, escrúpulos, dúvidas, inquietações e receios, ao receber o indulto do afastamento, professou ao mesmo tempo o ato da Oblatio, anteriormente preparado por escrito, por inspiração da Divina Majestade (cf. FDR 3). A essa visão ele foi fiel até o final dos seus dias e, quando surgiam dificuldades ─ que por vezes pareciam simplesmente insuperáveis ─, justamente aquela vivência espiritual, relacionada com a fundação da ordem da Imaculada Conceição da Mãe do Senhor, é que lhe dava forças para superar todos os obstáculos e para permanecer fiel ao Espírito Santo.

Meditando hoje sobre os escritos e a vida do Padre Fundador ─ mas também dos nossos outros santos padres ─, é preciso enfatizar que esse mistério da Imaculada Conceição de Maria não é abstrato e não diz respeito ao acontecimento, mas refere-se à Pessoa de Maria. Em razão da obra da salvação e dos futuros méritos de Seu Filho, é nela que esse mistério foi personalizado. Nela encontramos o privilégio e o dom da preservação do pecado original, percebemos o amor de Deus que precede qualquer ação do homem; nela encontramos o absoluto primado de Deus e da Sua graça. No mistério da Imaculada Conceição essa graça possui, no entanto, uma face sua tão nítida e uma tal corporalização que em Lourdes Maria dirá a Bernadete: “Eu sou a Imaculada Conceição”.

Por conseguinte, a reflexão sobre o mistério da Imaculada Conceição de Maria e o crescimento no nosso carisma mariano levam sempre ao descobrimento da Pessoa de Maria, ao amor filial para com Ela e a uma confiante entrega a Ela. Como é eloquente nesse contexto a confissão do Beato Jorge Matulaitis-Matulewicz, registrado em seu Diário Espiritual um ano e meio após a profissão dos votos religiosos na nossa comunidade. Escreve ele: “Graças Vos dou, Senhor, pelos sentimentos especiais a mim concedidos de amor em relação à Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria. Antigamente me era mais difícil essa oração, mas agora, como é doce orar prostrado a Seus pés e mergulhar em oração. A alma parece desfalecer envolvida dos mais doces sentimentos, e o corpo é penetrado por estranhos, inconcebíveis e inexprimíveis tremores” (DE, 13 de janeiro de 1911). Será que nesse registro não podemos perceber o enraizamento do beato Renovador no carisma da Congregação em que ingressou? Ou, em outras palavras: Será que não percebemos nessa sincera confissão do jovem mariano o sinal da ação do Espírito Santo, que conduziu o Beato Jorge à vida na plenitude do carisma desse instituto em que ingressou para o salvar da morte? Esse processo da descoberta da própria identidade espiritual e o crescimento no Espírito Santo, que infunde o carisma primeiramente no coração do Fundador e a seguir em seus filhos espirituais, é uma tarefa para toda a história da Congregação e a vida de cada coirmão. É o caminho do amadurecimento espiritual e a condição para a produção do fruto que permanece (cf. Jo 15:16). Esse caminho nos é mostrado e nele nos ajuda Maria Imaculada, Mãe de nosso Senhor e nossa Mãe (cf. C 6). Rezamos, então, juntamente com o Beato Jorge, aceitando como nossas as suas palavras: “Mãe Santíssima, alcançai-me junto a Vosso Filho a graça de eu a cada dia mais Vos amar, de em Vós depositar uma confiança cada vez maior, de cada vez mais apreciar a Vossa incomparável proteção. Aceitai a nossa Congregação sob a Vossa poderosa proteção, ó Mãe nossa, aceitai a nós, indignos, se não por outra razão ─ porque somos pobres e mendigos em espírito ─, então pelo menos em razão do Vosso nome, que trazemos. Fazei com que a nossa vida seja pura e sem mácula” (DE, 7 de setembro de 1911).

2. A comunidade religiosa e a evangelização. O ano 2014 como continuação do Ano da Comunidade Mariana

No dia 24 de novembro deste ano, o Santo Padre Francisco promulgou a exortação apostólica sobre o alegre anúncio do Evangelho no mundo contemporâneo, intitulada Evangelii Gaudium. O Papa assinala nela algumas diretrizes que podem estimular e direcionar em toda a Igreja uma nova etapa evangelizadora, repleta de entusiasmo e dinamismo. Como comunidade religiosa, bem como individualmente, queremos seguir o seu ensinamento, envolvendo-nos com mais plenitude e devotamento na ação evangelizadora da Igreja.

Interpretando, porém, o sentido das palavras do papa Francisco, podemos perceber pelo menos duas dimensões da evangelização. Eu chamaria a primeira de evangelização do próprio coração, ou de submissão da própria vida à ação do Evangelho; a segunda é o ministério da evangelização. No contexto da nossa vida religiosa, eu gostaria de chamar uma atenção especial às palavras relacionadas à submissão da própria vida a Cristo e ao Seu Evangelho. Elas possuem também um significado no contexto da perceptível crise da vida comunitária, a respeito do que escrevei na carta do ano passado. Proclamei então o ano 2013 como o Ano da Comunidade Mariana. Sou grato àquelas comunidades, tanto em nível das diversas províncias como dos vicariatos, bem como às comunidades locais que assumiram essa tarefa com fé e compreensão e que reconheceram o meu estímulo não apenas como uma possibilidade de reflexão e oração, mas, sobretudo como um apelo a empreender tentativas para a construção de uma vida comum mais consciente e fiel à vocação com que fomos agraciados por Deus. Muitos de nós, possivelmente, percebemos já não pela primeira vez, que a comunidade não pode ser tratada como uma área de divisão de trabalhos e interesses comuns, ainda que nobres. Não é também uma congregação de cristãos que buscam exclusivamente a perfeição pessoal. Uma comunidade religiosa fraterna é um valor em si mesmo, como um reflexo vivo e uma especial concretização da comunhão da Igreja mergulhada no mistério da Santíssima Trindade.

Em razão disso, a vida fraterna em comunidade possui um significado fundamental. Ela é um espaço de fé e da sua partilha com os irmãos de diversos povos e nações, unidos pelo mesmo carisma. A fraternidade é o ambiente fundamental e primordial da evangelização. Se realmente acontece que “ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (Evangelii Gudium 7, doravante EG), então a tarefa de uma comunidade religiosa é criar o espaço de tal encontro com Cristo, porquanto ela é uma comunidade de vida e envolve todas as suas dimensões, de maneira especial a experiência da fé. Somente depois, “graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e da auto-referencialidade Chegamos a ser plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro. Aqui está a fonte da ação evangelizadora. Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?” (EG 8). Por conseguinte, a fé tem o poder de criar uma comunidade, a experiência do amor de Deus inspira a sair do egoísmo e do círculo fechado dos próprios interesses. Essas são orientações fundamentais para a nossa vida religiosa, especialmente no contexto da crise que se observa.

Em razão disso, decidi proclamar também o ano 2014 como o Ano da Comunidade.

Com efeito, confio que, prorrogando dessa forma a reflexão comunitária e individual sobre os princípios da vocação, teremos todos a ocasião de penetrar mais a fundo na nossa realidade mariana, de maneira a não ocultar os nossos pecados e defeitos ─ comunitários e individuais, bem como, fazendo uso da mais recente doutrina da Igreja e dos poderes permanentemente vivos do nosso patrimônio, a valorosamente sair do círculo fechado do egoísmo, superando a mentalidade do mundo contemporâneo. Exatamente por essa razão, juntamente com a Administração Geral, decidi que o Convento Geral do próximo ano seja dedicado à questão da vida comum. Esse Convento se realizará na Polônia, em Licheń, nos dias 7-12 de abril de 2014, tendo como tema condutor: A comunidade mariana de vida: ontem, hoje, amanhã. O objetivo do Convento, em decorrência da própria legislação, é examinar a qualidade da nossa vida religiosa em seus diversos aspectos. Porque, embora nas diversas províncias ou vicariatos a crescente crise da vida comum tenha bases diversas, os seus sintomas são semelhantes. Parece-me que o seu formato é perfeitamente descrito justamente pela exortação Evangelii Gaudium: “Hoje nota-se em muitos agentes pastorais, mesmo pessoas consagradas, uma preocupação exacerbada pelos espaços pessoais de autonomia e relaxamento, que leva a viver os próprios deveres como mero apêndice da vida, como se não fizessem parte da própria identidade. Ao mesmo tempo, a vida espiritual confunde-se com alguns momentos religiosos que proporcionam algum alívio, mas não alimentam o encontro com os outros, o compromisso no mundo, a paixão pela evangelização. Assim, é possível notar em muitos agentes evangelizadores – não obstante rezem – uma acentuação do individualismo, uma crise de identidade e um declínio do fervor. São três males que se alimentam entre si” (EG 78). Trata-se de uma imagem inquietante e que infelizmente diz respeito também a nós. É preciso, portanto, olhar corajosamente e na verdade para os problemas e os desafios que se apresentam diante de nós, pedir ao Senhor a graça da conversão e, assumindo o esforço da transformação de vida, rezar com as palavras do Beato Jorge: “Fazei com que a nossa vida seja pura e imaculada”. Confio que o Convento Geral, como obra de reflexão e oração comunitária, a esse respeito produzirá um fruto em forma de submissão dos nossos corações a Cristo e ao Seu Evangelho, bem como traçará o caminho para um devotado envolvimento na evangelização.

Caros Coirmãos,

Deus nos fala através de diversas circunstâncias e acontecimentos. Oxalá queiramos ouvir a Sua voz e oxalá não endureçamos os nossos corações (cf. Sl 95:8). Os 340 anos do surgimento da nossa Congregação, a atual doutrina da Igreja, encerrada principalmente na exortação Evangelii Gaudium, e a visão na verdade a crise da vida comum são sinais da Providência Divina que nos falam. Queremos aceitá-los e interpretá-los como uma possibilidade de conversão e como uma resposta nossa ao Senhor que atualmente nos fala. Como sabemos da história da nossa vida pessoal de fé, a crise é também uma possibilidade de crescimento. No entanto essa crise deve ser bem diagnosticada, e as ações empreendidas devem adequar-se ao problema e basear-se na fé e no amor de Cristo. Ardentemente estimulo a todos a continuar a reflexão pessoal e comunitária sobre esse problema e à oração pedindo os abundantes frutos do Convento Geral. Confio toda a Congregação à Mãe Santíssima Imaculada e à Sua poderosa proteção, bem como à intercessão do Beato Padre Fundador, do Beato Padre Renovador e dos Beatos mártires Antônio e Jorge, assim como a outros Coirmãos anônimos nossos que após concluírem o curso da vida alcançaram a glória do céu.

No caminho da vida com a fé e o amor, no empreendimento do esforço pela volta ao primitivo zelo e pela abertura do coração submisso ao Evangelho, para o esforço da conversão e da fidelidade ao próprio carisma sob a infalível proteção da nossa Padroeira, que Vos abençoe o Deus todo-poderoso: Pai e Filho e Espírito Santo.

Roma, 30 de novembro de 2013.

Pe. Andrzej Pakuła MIC
Superior Geral

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