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Days of Recollection

Pelo que devo pedir perdão?
Em que consiste a “infidelidade” de um mariano?

Quando cometemos alguma impropriedade ou descortesia – pedimos perdão. Quando prejudicamos alguém – pedimos perdão. Quando pecamos, quando nos preparamos para a confissão – pedimos perdão a Deus. É importante perceber aqui que quem o faz somos “nós”. Em cada um desses casos, somos NÓS que agimos, não deixando – nem aos homens nem a Deus – a possibilidade de se posicionarem diante das nossas “transgressões”. Ou talvez, em vez de pedir perdão, seria preciso pedir que nos perdoassem? Para os menos atentos, não existe uma grande diferença entre pedir perdão e pedir para ser perdoado. No entanto essa diferença existe. E é uma diferença fundamental. O pedido para ser perdoado coloca a quem pede numa posição de solicitante. Trata-se de uma forma de tornar-se dependente da decisão do outro. É a situação em que o pecador, ou seja, aquele que provocou uma dor ou mágoa apresenta-se indefeso, mostrando-se num estado de certa humilhação, entregando-se “ao belprazer” do outro. É também um ato de humildade, o caminho para a verdadeira reconciliação. É também uma oportunidade para se colocar numa postura de ouvir.

Todo jubileu é um tempo de graça, de ação de graças, mas também um tempo de reflexão e de exame de consciência. Para podermos seguir adiante, como comunidade e como indivíduos, é necessário às vezes olhar para trás, para reconhecer os pecados e as infidelidades, para também deles extrair as adequadas conclusões à luz da palavra divina e do nosso carisma. Ver o pecado e a infidelidade já é uma graça. Esse confronto com a verdade, sem auto-acusação nem sentimento de culpa, permite que se vejam todos aqueles pontos que trazem a morte e fazem com que nos afastemos do objetivo que por Deus nos foi assinalado.

Fidelidade ao carisma

A Igreja conclama freqüentemente os religiosos a uma volta às fontes, àquilo que foi despertado no coração dos fundadores e transmitido às comunidades por eles fundadas. Esse exame de consciência comunitário deve levar-nos a refletir se vivemos segundo o carisma que nos foi transmitido pelo Padre Fundador e que foi atualizado pelo Padre Renovador. As circunstâncias históricas e a mentalidade mudam. Por isso, para a vitalidade comunitária é indispensável que haja um sistemático discernimento a respeito de como hoje, aqui e agora, devemos realizar o nosso carisma. Sem vigilância, sem disernimento, arriscamo-nos a afastar-nos da fidelidade ao carisma da Congregação. Surge então a pergunta se e como discernimos. Se, em vez de discernimento, deixamo-nos levar pelas tendências, modas, infuências do mundo. O Padre Fundador deixou-nos em “testamento” a Providência Divina como ponto de referência. Pode-se brincar, dizendo que ele não tinha outra saída quando o bispo Wierzbowski, tendo distribuído todos os bens e privilégios a outros, não tinha nada para dar aos marianos além da Providência Divina. Talvez seja um piedoso subterfúgio, um acaso, ou talvez Deus realmente quer que, como Maria, confiemos inteiramente n’Ele? Porque não será uma espécie de falta de fé o “discernimento” em que o argumento mais importante é o balanço das perdas e dos lucros? Não se trata aqui, evidentemente, de uma barata ideologia, ou de falta de prudência. Quanto espaço ocupa em nosso discernimento comunitário a referência à palavra divina, a qual (e aqui cada um deve responder a essa pergunta), como muitas vezes parece, ocupa pouco espaço no processo do discernimento? Será que rezamos pedindo o cumprimento da vontade divina antes de tomarmos decisões importantes relacionadas com a casa, a província ou a Congregação? O temor diante de algum prejuízo material pode ser grande, pode ocultar o plano divino. Ninguém de nós (ou em todo o caso poucos) tem vontade de sofrer penúria, de viver na incerteza do amanhã. Tendo uma vez experimentado a miséria ou a falta de alguma coisa, dizemos: nunca mais. Não vamos comer mais margarina e não imaginamos a vida sem os mais modernos recursos tecnológicos, sem a certeza e a segurança que nos possamos garantir. A queda das vocações motiva antes a acusação de que alguém deve ter negligenciado alguma coisa, sem perguntar o que Deus quer nos dizer com esse fato. O próprio conforto, tanto material como psicológico, pode subtrair a clareza de visão, ou até a razão (sem falarmos da permanência na graça divina). O profeta Jeremias (Jr 7:4) adverte contra o jogo das aparências, contra a compreensão do bem-estar como um estado necessário de bênção.

Os pecados provocados pela falta de discernimento são uma bomba de efeito retardado. Fazem das comunidades, cuja natureza é viver segundo a graça divina, instituições mais ou menos organizadas, que circunstancialmente procuram adaptar-se segundo princípios puramente humanos, deixando de cumprir o papel que para elas foi previsto por Deus.

Fraternidade; amor ao próximo

Um outro motivo pelo qual seria preciso pedir o perdão a Deus e aos homens é o estado de vida fraterna. João Paulo II lembrava-nos que a fertilidade da vida religiosa depende da qualidade da vida fraterna. A respeito dos primeiros cristãos dizia-se: Vejam como eles se amam! Será que em relação à nossa vida fraterna isso poderia ser dito, sem cara feia ou sarcasmo? Acaso sou guarda de meu irmão? – disse Caim (Gen 4:9). De fato, costumamos ser guardas de nossos irmãos, embora com muita freqüência de forma moralizante, acusadora e condenatória. Por outro lado, também não queremos que os outros se interessem demasiadamente por nós. A fuga da comunidade parece ser com muita freqüência um meio para a solução dos problemas. Não possuindo vínculos naturais, não permitimos ser atraídos pelos vínculos criados pela graça divina, pelo amor de Cristo. Com muita freqüência não sabemos aceitar-nos tais quais somos, escandalizando-nos com tantas diferenças, com a fraqueza, com a mentalidade. Os atingidos pela fraqueza afastam-se daqueles que se consideram melhores, mais perfeitos, os quais por sua vez não sabem muito bem como se aproximar daqueles que se sentem desorientados. É difícil deixar de falar de pecados como o julgamento, a malediência, a bisbilhotice, a multiplicação de informações ouvidas e não confirmadas, a inveja, o egocentrismo... Vale a pena perguntar a si mesmo e à comunidade o que destrói a sua unidade. Até que ponto o relacionamento mútuo é sincero e até que ponto é superficial, assinalado pela desconfiança e pela suspeita. Convém lembrar que o demônio, quando quer destruir a comunidade, começa sempre por quebrar a sua unidade, para depois, individualmente, “acabar” com cada um sucessivamente. Além disso ele faz isso com as nossas próprias mãos, ou melhor, com o nosso coração empedernido e insensível, conduzindo-nos, como carneiros inconscientes, para a carnificina... a qual não é absolutamente um sacrifício do qual brota a vida...

Pro Ecclesia

É preciso também pedir perdão à Igreja. Nem todo apostolado, ou antes, nem toda forma de “cultivá-lo”, é um trabalho em prol da Igreja. A nossa atividade pode tornar-se uma forma de auto-realização, um campo de realização das nossas próprias ambições, um lote que nós mesmos achamos que sabemos melhor cultivar. Ai dos outros! Por exemplo o pecado contra a pobreza não precisa consistir exclusivamente no acúmulo de bens materiais. O fato de não partilharmos o nosso trabalho e os seus frutos também pode testemunhar a falta de pobreza. Pessoas individuais imaginam que possuem a melhor receita para determinado tipo de trabalho, para a forma da sua realização, etc. Por outro lado, quando não somos o “primeiro violino” em alguma atividade, ela não nos interessa. E assim criam-se lotes particulares, algumas vezes latifúndios, algo do tipo de sociedade unipessoal, onde há um só dono. E após o seu afastamento, transferência ou morte, esses espaços se cobrem de mato e fenecem. Os que vêm depois têm de recomeçar tudo... Tal situação é uma espécie de ferida para a Igreja, que afinal não é propriedade nossa. Somos servos imprestáveis... Apegados às nossas próprias visões, quantas vezes distintas daquela que nos transmite o Magistério da Igreja, contribuímos ora para divisões dentro da Igreja, ora para a confusão que surge nas cabeças das pessoas que nos são confiadas. Eu sou de Paulo, eu de Apolo, eu de Cefas... A pregação transforma-se na divulgação de sabedorias humanas, no relato de histórias que não têm como ponto de referência a Palavra. Tendo uma vez concluído o seminário ou a formação religiosa, sentimo-nos “seguros” e temos poucas tendências ao aprendizado, ao desenvolvimento, ao aprofundamento da fé, inclusive pelo estudo dos documentos da Igreja e pela visão da realidade da perspectiva da história da salvação. Constitui uma ferida para a Igreja a infidelidade no âmbito dos votos. Não existe pecado que não provoque uma ferida na comunidade: tanto religiosa como de toda a Igreja.

Neste ponto vale a pena indagar a respeito do espírito mariano. Não se trata apenas do ad gentes. Hoje o espírito missionário, em seu sentido amplo, diz respeito igualmente a sair ao encontro de dimensões novas de pobreza moral, espiritual e material. O temor pela própria vida, a segurança e o bem-estar sufocam a abertura evangélica a novos espaços. As feridas da Igreja exigem o sacrifício (palavra cada vez menos popular...), para o qual talvez poucas vezes estejamos prontos. E aqui de nada serve a moralização, as mensagens, talvez até certos tipos de coação. Trata-se de uma questão de abertura do coração, de incessante metanóia (mudança de mentalidade), de verdadeira prontidão para morrer em prol da Igreja.

A infidelidade do mariano

Todo pecado, pelo seu peso, afasta-nos de Deus.

Basicamente, a infidelidade de um mariano, em sua essência, não se distingue da infidelidade de qualquer outro cristão. Sempre diz respeito à fé e à fidelidade. O que pode ser para nós um sinal especial é a pessoa de Maria. Ao chamar à existência a nossa comunidade, Deus nos deixou de maneira especial Maria como a figura do crente. A infidelidade ao carisma de um mariano pode iniciar-se por restringir o espírito mariano ao especto da piedade. Essa limitação acarreta o perigo de certa alienação. A oração e os atos de piedade devem expressar sobretudo a forma de viver e de ser no dia-a-dia. É a forma de ver a realidade pelo prisma de como ela era vista por Maria. E novamente voltamos à confiança em Deus, em Sua Providência. Durante a Anunciação Maria diz ao arcanjo Gabriel: “Eu não conheço homem algum”. O jogo de palavras permite que interpretemos isso da seguinte forma: “Não tenho poder em mim mesma”. O nome Gabriel significa o poder de Deus. Portanto, o poder vem de fora, apresenta-se diante de Maria a fim de capacitá-la a aceitar o que humanamente parece impossível. Retomando a questão do discernimento, a infidelidade de um marianos pode consistir em confiar apenas em si mesmo, em suas próprias possibilidades, sem a preocupação de buscar a vontade de Deus. É também a falta de paciência nas provações, especialmente na provação da Cruz, na qual é tão fácil ceder à dúvida e à resignação. Se aceitarmos o fato de que a Imaculada Conceição é a promessa de uma nova vida em Cristo, dada gratuitamente, por graça divina, importa perguntar também se em nosso ministério, na nossa forma de vida expressamos a esperança do cumprimento dessa promessa. Se somos realmente (de diversas formas) os anunciadores dessa verdade. A marca de Maria era ver a realidade, a história pelo prisma da palavra divina, que Lhe foi revelada. Poderíamos dizer: ao nos chamar aos Marianos, Deus nos estimula a que vejamos com o olhar de Maria a nossa vida, a história que em nossa volta se desenrola. Essa maneira de ver é a melhor forma de perceber Cristo até em situações humanamente desesperadoras. A fé brota daquilo que se ouve, e o que nós devemos ouvir é a palavra de Deus. Será que realmente nos assinala a postura do ouvir? O espírito mariano de um religioso mariano é igualmente a qualidade de vida fraterna que se manifesta na ajuda mútua proporcionada no dia-a-dia. É também a demonstração do generoso perdão em relação aos coirmãos e às pessoas que nos cercam. É também não concentrar a atenção em nós mesmos, mas dirigi-la a Cristo: Fazei tudo o que ele vos disser...

Naturalmente a infidelidade manifesta-se no dia-a-dia, no relacionamento com a oração, as obrigações, os nossos estatutos. É também uma expressão de falta de fé e confiança. Neste ponto, cada um por si e como comunidade deve conhecer e aceitar em seu coração a verdade a respeito de si mesmo, abrindo-se à incessante conversão.


Pe. Eugênio Zarzeczny MIC
Polônia




Perguntas para reflexão:

  1. Com base na Palavra de Deus e no carisma da Congregação, quais são na sua opinião as maiores negligências e pecados da Sua comunidade (casa, província, Congregação), pelos quais é preciso pedir o perdão?
  2. Em que pode consistir hoje a renovação da nossa comunidade religiosa?
  3. Em que e até que ponto Maria é para você um sinal especial de vocação mariana?

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